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Curso decurso

Coursed course
2013





fotos de João Mussolini, Ana Dupas, Lucas Sargentelli e da artista.


Coursed course is the reformatting of a book: the first Ancient Tupi language course, organized by the priest Lemos Barbosa. Ancient Tupi had been considered dead long before that publication, in 1956. The lessons use texts written in Tupi by Jesuit priests between XVI and XVII centuries, as well as translations and explanations in Portuguese.

Since the pages are thick and old, the print can be peeled-off with adhesive tapes. Erasing text allows certain content to become more visible. Thus, viewers can see outstanding absurdities, confusion, and violence. Ancient Tupi is a simplification of many native languages, a process that was necessary only because of the colonizers. Equivocal translation is evident: “we are blue-green (for people)”, “jaguar-bird”, “they cut the feet (of each other)”, “stone-boy”, “they whip each other (mutually)”.  

The linear structure of the book is broken into several pieces, allowing the public to interact with the contents in different ways. Peeled and cut material became transparent slides, cards, and dices. Three drawings with enlarged lessons from the book operate as classroom posters in the exhibition space.
Curso decurso é a reconfiguração de um livro: o primeiro curso de  tupi antigo, organizado pelo Pde. Lemos Barbosa.  O idioma já era considerado morto há muito tempo na época desta publicação, em 1956.  As lições foram preparadas com textos em tupi escritos por jesuítas nos séculos XVI and XVII, e incluíam também traduções e explicações em português.


Como as páginas deste livro são grossas e velhas, a impressão pôde ser removida com fita adesiva. O apagamento do texto permite que certos conteúdos se tornem mais visíveis. Assim, os visitantes podem ver passagens absurdas, muita confusão e violência. O tupi antigo foi uma simplificação de muitos idiomas nativos, um processo necessário apenas por causa dos colonizadores. Equívocos tradutórios são evidentes em trechos como: “nós somos azuis/verdes (para pessoas)”, “pássaro-onça, “eles cortam os pés (uns dos outros)”, “pedra-menino, “eles se açoitam (mutuamente)”.  

A estrutura linear do livro foi assim quebrada em muitas partes, permitindo ao publico interagir com os conteúdos de diferentes maneiras. Materiais decalcados e recortados se tornaram lâminas transparentes, cartões e dados. Três lições foram ampliadas à mão e afixadas no espaço expositivo.






Quem se lembrará?



Sempre foi máxima praticada por todas as nações conquistadoras introduzir nos povos conquistados seu próprio idioma, por ser este um dos meios mais eficazes para se desterrar de tais povos a barbárie de seus antigos costumes. A experiência nos mostra que ao mesmo tempo em que se lhes introduz o uso da língua do príncipe que os conquistou, também se lhes inculca o afeto, a veneração e a obediência ao mesmo príncipe. Todavia, no Brasil, praticou-se o contrário: os primeiros conquistadores só cuidaram de estabelecer aí o uso da chamada língua geral (uma derivação do tupi antigo), uma invenção verdadeiramente abominável e diabólica. Para desterrar este pernicioso abuso, um dos principais cuidados, a partir de agora, será estabelecer nestas povoações o uso da língua portuguesa, não consentindo por modo algum que os meninos e meninas nas escolas e todos aqueles índios que forem capazes de instrução usem a língua própria das suas nações, nem a chamada língua geral, mas unicamente a portuguesa. (Texto adaptado do diretório de 1758, que proibiu o uso da língua geral no Brasil)

[...]

Em Curso Decurso, Maíra das Neves submete o Curso de Tupi Antigo – uma gramática redigida pelo padre Lemos Barbosa e publicada em 1956 – a uma particular atualização. Como se encenando uma "sala de aula", o trabalho nos convida a entabular diferentes "lições", por meio da manipulação de alguns "recursos pedagógicos", elaborados pela artista (que também é professora de idiomas) a partir da extração, quase sempre física, de partes do livro. A propósito, educar (educare) ou eduzir (educere) comportam tanto o sentido de extrair quanto de atualizar; mais propriamente, com base na doutrina aristotélica, de extrair da potência o ato, da mera possibilidade de ser aquilo que verdadeiramente é. Assim, com base na cristianização dessa ideia, tal "atualização" não comporta mudanças históricas nem diferenças culturais, na medida em que todo "ato" – o que em última instância consiste no reconhecimento de princípios ou sujeitos universais – já se encontraria, desde sempre, criado por Deus.

Mas este Decurso, justamente, parece distanciar-se dessa "transcendência", que, nos séculos XVI e XVII, justificou as conquistas espirituais e territoriais pelos jesuítas e bandeirantes, servindo-se da língua então onipresente – ao contrário do que sugere o diretório (Edelweiss) –, como instrumento de uma "dominação por etapas". Diferentemente do Curso de Lemos Barbosa, que somente quis "expor os fatos da língua, não explicá-los", o tupi e suas traduções aparecem aqui marcados por diferentes cenas de violência, da vingança indígena – que, por sua constância, não poderíamos desconsiderar – à colonização portuguesa: "êles se cortaram os pés (uns aos outros)", "arrancamo-nos os olhos (uns aos outros)", "êles se açoutam (mutuamente)" etc.; mas também por uma "afinidade relacional" ou "incompletude ontológica essencial", irreconhecíveis pela "identidade substancial" dos europeus (Viveiros de Castro): "onça-pássaro", "pedra-menino", "a gente é azul" etc.

Desse modo, ao se voltar para o estudo de uma língua morta, este trabalho não só contraria certo "presentismo" do contemporâneo – a par de que, segundo Lemos Barbosa, "o verbo tupi não conhece a noção de tempo" –, como também alude, em contraponto, a questões cuja participação na vida nacional é cada vez mais intensa, uma vez haver línguas indígenas ainda vivas. Para que se tenha uma ideia, segundo o Conselho Indigenista Missionário, desde 2003, cerca de 550 índios foram assassinados no Brasil; no mesmo período, só no Mato Grosso do Sul, a UNICEF contabiliza quase 80 adolescentes mortos por asfixia mecânica (suicídio por enforcamento) etc. Sabemos que os significados não residem nas coisas ou no mundo, mas são construídos pela linguagem. Na medida em que o Curso se espacializa e se fragmenta por meio daquelas extrações, é como se a própria possibilidade de tradução, entre diferentes sociabilidades e cosmologias, ameaçasse desaparecer.

Cayo Honorato, dezembro de 2013


Referências:
BARBOSA, Pe. Antonio L. Curso de Tupi Antigo: gramática, exercícios, textos. Rio de Janeiro: Livraria São José, 1956.
EDELWEISS, Frederico G. Estudos Tupis e Tupis-Guaranis: confrontos e revisões. Rio de Janeiro: Brasiliana, 1969.
UNICEF. Suicidio adolescente en pueblos indigenas: tres estudios de caso. Panamá: UNICEF, 2012.
VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo. O mármore e a murta: sobre a inconstância da alma selvagem. In: ___. A inconstância da alma selvagem – e outros ensaios de antropologia. São Paulo: Cosac & Naify, 2011, pp. 181-264.




texto do catálogo da exposição individual Curso decurso
Programa de Exposições do Centro Cultural São Paulo no Gabinete do Desenho/ Chácara Lane, 2013